27 de junho de 2009

Capitulo 17- VISITANTE

17. VISITANTE


Desnaturalmente rígida e branca, com grandes olhos pretos fixados em mim, a minha

visitante me esperava perfeitamente imóvel no centro da sala, linda além da imaginação.

Meus joelhos tremeram por um segundo, e eu quase caí. Depois eu me joguei em cima dela.

- Alice, oh, Alice! - eu chorei, enquanto me chocava com ela.

Eu havia me esquecido quanto ela era dura; era como correr precipitadamente pra cima de

uma parede de cimento.

- Bella? - havia uma estranha mistura de alívio e confusão na voz dela.

Eu prendí meus braços ao redor dela, lutando pra inalar o máximo do cheiro da sua pele que

fosse possível. Não era mais nada - nada floral ou condimentado, cítrico ou almíscar. Nenhum

perfume no mundo poderia se comparar. Minha memória não fazia justiça.

Eu não reparei quando os suspiros se transformaram em algo mais - eu só percebí que os

suspiros haviam se transformado em soluços quando Alice me arrastou para o sofá da sala de

estar e me colocou no colo. Era como estar curvada numa pedra fria, mas uma pedra que

contornava confortavelmente o formato do meu corpo. Ela esfregou as minhas costas num ritmo

gentíl, esperando que eu me controlasse.

- Me... desculpe - eu tagarelei. - Eu só estou... tão feliz... de ver você!

- Tudo bem, Bella. Está tudo bem.

- Sim - eu uivei. A, pela primeira vez, parecia estar mesmo.

Alice suspirou. - Eu havia me esquecido de como você era exuberante - ela disse, e o tom

dela era de desaprovação.

Eu olhei pra ela por entre os meus olhos mareados. O pescoço de Alice estava apertado, se

afastando de mim, os lábio dela estavam apertados firmemente. Os olhos dela estavam, pretos

como piche.

- Oh - eu arquejei, quando me dei conta do problema. Ela estava com sede. E eu era

apetitosa. Já fazia um tempo que eu não pensava nesse tipo de coisa. - Desculpa.

- É minha própria. Já faz algum tempo que eu estou sem caçar. Eu não devia me deixar ficar

com tanta sede. Mas eu estava com pressa hoje. - O olhar que ela direcionou pra mim foi

resplandecente. - Falando nisso, será que você poderia me explicar como é que você está viva?

Isso me chamou a atenção e fez os soluços pararem. Eu me dei conta do que havia

acontecido imediatamente, e porque Alice estava aqui.

Eu engolí fazendo barulho. - Você me viu cair.

- Não - ela discordou, com os olhos se apertando. - Eu ví você pular.

Eu torcí meus lábios e tentei encontrar uma explicação pra isso que não soasse maluca.

Alice balançou a cabeça. - Eu disse pra ele que isso ia acontecer, mas ele não acreditou em

mim. 'Bella prometeu'. - A voz dela imitou tão perfeitamente que eu congelei chocada enquanto a

dor arrasava o meu tórax. - 'E não fique olhando para o futuro dela, também' - ela continuou

citando ele. - 'Nós já causamos estragos o suficiente'. Só porque eu não procuro, isso não quer

dizer que eu não vejo - ela continuou. - Eu não estava espionando você, eu juro, Bella. É só que

eu já estou ligada á você... quando eu te ví pulando, eu nem pensei, eu simplesmente peguei um

avião. Eu sabia que podia ser tarde demais, mas eu não podia ficar sem fazer nada. E depois eu

cheguei aqui, pensando se eu podia ajudar Charlie de alguma forma, e você aparece. - Ela

balançou a cabeça, dessa vez com confusão. A voz dela estava tensa. - Eu ví você cair na água e

eu esperei e esperei pra que você voltasse, mas você não voltou. O que aconteceu? E como você

pode fazer isso com Charlie? Você parou pra pensar no que isso faria com ele? E com o meu

irmão? Você não faz idéia do que Edward...

Eu cortei ela nessa hora, assim que ela disse o nome dele. Eu deixaria ela continuar, mesmo

depois que ela percebesse o mal entendido no qual ela havia se metido, só pra ouvir o tom

perfeito da voz dela. Mas era hora de interromper.

- Alice, eu não estava cometendo suicídio.

Ela me olhou duvidosamente. - Você está dizendo que não pulou de um penhasco?

- Não, mas... - eu fiz uma careta. - Foi apenas com propósitos recreatórios.

A expressão dela endureceu.

- Eu havia visto alguns dos amigos de Jake mergulhando dos penhascos - eu insistí. -

Pareceu que era... divertido, e eu estava aborrecida...

Ela esperou.

- Eu não pensei que a tempestade fosse afetar as correntes. Na verdade, eu nem pensei

muito na água.

Alice não acreditou. Eu podia ver que ela ainda pensava que eu estava tentando me matar.

Eu decidí mudar de direção. - Então se você me viu entrar, como é que você não viu Jacob?

Ela deixou a cabeça cair pro lado, distraída.

Eu continuei. - É verdade que eu provavelmente teria me afogado se Jacob não tivesse

pulado atrás de mim. Bem, tá legal, não tem nenhum provavelmente aí. Mas ele pulou, e ele me

tirou de lá, e eu acho que ele me guiou de volta para a costa, apesar de eu estar meio por fora

nessa parte. Não pode ter se passado nem um minuto de quando eu estava lá em baixo até que

ele me puxou. Como é possível que você não tenha visto isso?

Ela fez uma carranca de perplexidade. - Alguém tirou você de lá?

- Sim. Jacob me salvou.

Eu observei curiosamente enquanto uma enigmática extensão de emoções passava pelo

rosto dela. Alguma coisa estava incomodando ela - a sua visão imperfeita?

Mas eu não tinha certeza. Então ela deliberadamente se inclinou e cheirou meu ombro.

Eu congelei.

- Não seja ridícula - ela murmurou, me cheirando um pouco mais.

- O que você tá fazendo?

Ela ignorou minha pergunta. - Quem era que estava lá fora com você agora mesmo?

Pareceu que vocês estavam discutindo.

- Jacob Black. Ele é... meio que meu melhor amigo, eu acho. Pelo menos, ele era... - Eu

pensei no rosto enraivecido, traído de Jacob, e me perguntei o que ele era pra mim agora.

Alice balançou a cabeça, parecendo preocupada.

- O que foi?

- Eu não sei - ela disse. - Eu não sei o que isso significa.

- Bem, pelo menos, eu não estou morta.

Ela rolou os olhos. - Ele foi um tonto de achar que você poderia sobreviver sozinha. Eu

nunca ví alguém tão propenso á idiotices que ameaçam a vida.

- Eu sobreviví - eu apontei.

Ela estava pensando em outra coisa.

- Então, se as correntes eram demais pra você, como é que esse Jacob conseguiu?

- Jacob é... forte.

Ela ouviu a relutância na minha voz, e as sobrancelhas dela se levantaram.

Eu mordisquei o meu lábio por um segundo. Isso era um segredo, ou não? E se fosse, com

quem era a minha maior aliança? Jacob ou Alice?

Era difícil demais guardar segredos, eu decidí. Jacob sabia de tudo, porque Alice também

não?

- Veja, bem, ele é... meio que um lobisomem - eu adimití com pressa.

- Os Quileutes se transformam em lobisomens quando têm vampiros por perto. Eles

conhecem Carlisle desde muito tempo atrás.

- Você já estava com Carlisle naquela época?

Alice olhou pra mim por um momento, e depois se recuperou, piscando rapidamente. - Bem,

eu acho que isso explica o cheiro - ela murmurou. - Mas será que isso explica o que eu não ví? -

ela fez uma careta, a sua testa de porcelana se enrrugando.

- O cheiro? - eu repetí.

- O seu cheiro é horrível - ela disse ausentemente, ainda fazendo careta. - Um lobisomem?

Você tem certeza disso?

- Muita certeza - eu prometí, estremecendo enquanto me lembrava de Paul e Jacob brigando

na estrada. - Eu acho que você não estava com Carlisle da outra vez que apareceram lobisomens

aqui em Forks?

- Não. Eu ainda não havia encontrado ele. - Alice ainda estava perdida em pensamentos. De

repente, seus olhos se arregalaram, e ela se virou pra mim com uma expressão chocada. - O seu

melhor amigo é um lobisomem.

Eu balancei a cabeça timidamente.

- A quanto tempo isso está acontecendo?

- Não muito tempo - eu disse, minha voz ainda soando defensiva. - Ele só se tornou um

lobisomem a algumas semanas.

Ela me encarou. - Um lobisomem jovem?? Pior ainda! Edward estava certo, você é um imã

de perigo. Não era pra você se manter longe de problemas?

- Não há nada errado com lobisomens - eu rosnei, picada pelo tom crítico dela.

- Até eles perderem a cabeça - ela balançou a cabeça asperamente de um lado para o outro.

- Só você mesmo, Bella. Qualquer outra pessoa ficaria tranquila quando os vampiros deixassem a

cidade. Mas você tinha que começar a se meter com os primeiros monstros que encontrasse.

Eu não queria discutir com Alice, eu ainda estava tremendo de felicidade por ela estar

realmente, verdadeiramente aqui, por poder tocar sua pele de mármore e ouvir sua voz, mas ela

havia entendido tudo errado.

- Não, Alice. Os vampiros não deixaram a cidade de verdade, pelo menos, não todos. Esse é

o problema todo. Se não fossem pelos lobisomens, Victória já teria me pegado a essa hora. Bom,

eu acho que, se não fosse por Jake e seus amigos Laurent já teriam me pegado antes dela,

então...

- Victória? - ela chiou. - Laurent?

Eu balancei a cabeça, um pouco alarmada pela expressão nos olhos pretos dela. Eu apontei

pro meu peito. - Imã de perigo, lembra?

Ela balançou a cabeça de novo. - Me conte tudo, comece no início.

Eu contei tudo desde o início, pulando a parte das motos e das vozes, mas contando todo o

resto pra ela até a desventura de hoje.

Alice não gostou da minha explicação sobre estar enfadada e pular de penhascos, então eu

me apressei pra contar sobre a estranha chama que eu havia visto na água e o que eu achava que

isso significava. Os olhos dela se apertaram até ficarem como linhas nessa parte. Era estranho ver

ela parecer tão... perigosa, como uma vampira. Eu engolí seco e contei o resto da história sobre

Harry.

Ela ouviu a minha história sem interromper. Ocasionalmente ela balançava a cabeça, e as

rugas na testa dela ficavam tão profundas que pareciam permanentes na sua pele de mármore.

Ela não falou, e finalmente, eu fiquei quieta, atingida de novo pelo pesar emprestado da morte de

Harry. Eu pensei em Charlie; ele devia estar voltando pra casa logo. Em que condições ele estaria?

- A nossa partida não fez bem nenhum, não foi? - Alice murmurou.

Eu rí uma vez, era um som levemente histérico. - No entanto, não havia necessitade, não é?

Não é como se vocês tivessem ido embora pra me beneficiar.

Alice olhou zangada para o chão por um momento. - Bem... eu acho que agí

impulssivamente hoje. Eu provavelmente não devia ter me intrometido.

Eu podia sentir o sangue sendo drenado do meu rosto. Meu estômago foi derrubado. - Alice,

não vá - eu cochichei. Meus dedos prenderam o colarinho da blusa dela e eu comecei a

hiperventilar. - Por favor não me deixe.

Os olhos dela se abriram mais ainda. - Tudo bem - ela disse, anunciando cada palavra com

uma lenta precisão. - Eu não vou a lugar algum essa noite. Respire fundo.

Eu tentei obedecer, apesar de não saber exatamente como localizar os meus pulmões.

Ela observou meu rosto enquanto eu me concentrava em respirar. Ela esperou até que eu

estivesse mais calma pra comentar.

- Você está horrível, Bella.

- Eu quase me afoguei hoje - eu lembrei ela.

- É mais profundo que isso. Você está uma bagunça.

Eu vacilei. - Olha, eu estou fazendo o que posso.

- O que você quer dizer?

- Isso não foi muito fácil. Eu estou trabalhando nisso.

Alice fez uma carranca. - Eu disse pra ele - ela disse pra sí mesma.

- Alice - eu suspirei. - O que você achou que fosse encontrar? Quer dizer, além de mim

morta? Você esperava me encontrar dando piruetas e assobiando melodias? Você me conhece

melhor do que isso.

- Eu conheço. Mas eu tinha esperanças.

- Então eu acho que eu não sou a única no mercado dos idiotas.

O telefone tocou.

- Deve ser Charlie - eu disse, ficando de pé. Eu agarrei a mão de pedra de Alice e arrastei

ela até a cozinha comigo. Eu não ia deixar ela sair da minha vista.

- Charlie? - eu atendí o telefone.

- Não, sou eu - Jacob disse.

- Jake!

Alice estudou a minha expressão.

- Só tendo certeza de que você ainda está viva - Jacob disse ácidamente.

- Eu estou bem. Eu te disse que não era...

- É. Entendí. Tchau.

Jacob desligou na minha cara.

Eu suspirei e deixei minha cabeça cair pra trás, olhando para o teto. - Isso vai ser um

problema.

Alice apertou minha mão. - Eles não estão felizes por eu estar aqui.

- Não exatamente. Mas não é da conta deles, afinal.

Alice colocou o braço ao meu redor. - Então o que faremos agora? - ela meditou. Ela

pareceu falar consigo mesma por um momento. - Coisas a fazer. Ajeitar as coisas.

- Que coisas a fazer?

O rosto dela estava cuidadoso de repente. - Eu não tenho certeza... eu preciso ver Carlisle.

Ela iria embora tão rápido? Meus estômago revirou.

- Você poderia ficar? - eu implorei. - Por favor? Só por um pouco de tempo. Eu sentí tanto a

sua falta. - Minha voz se quebrou.

- Se você acha que é uma boa idéia - os olhos dela não estavam felizes.

- Eu acho. Você podia ficar aqui, Charlie ia adorar.

- Eu tenho uma casa, Bella.

Eu balancei a cabeça, desapontada mas resignada. Ela hesitou, me estudando.

- Bem, eu preciso pegar uma mala de roupas, pelo menos.

Eu joguei meus braços ao redor dela. - Alice, você é a melhor!

- E eu acho que preciso caçar. Imediatamente. - ela acrescentou numa voz tensa.

- Oops. - Eu dei um passo pra trás.

- Será que você pode ficar fora de problemas por uma hora? - ela perguntou céticamente.

Então, antes que eu pudesse responder, ela levantou um dedo e fechou os olhos. O rosto dela

ficou suave e vazio por alguns instantes.

E então ela abriu os olhos e respondeu a sua própria pergunta. - Sim, você vai ficar bem.

Essa noite, pelo menos - ela fez uma careta. Mesmo fazendo caras, ela parecia um anjo.

- Você vai voltar? - eu perguntei com uma voz pequena.

- Eu prometo, uma hora.

Eu olhei para o relógio em cima da mesa da cozinha. Ela sorriu e se inclinou rapidamente pra

me dar um beijo na bochecha. Então ela foi embora.

Eu respirei fundo. Alice ia voltar. De repente eu me sentí muito melhor. Eu também tinha

muitas coisas pra fazer pra me manter ocupada enquanto esperava.

Um banho era definitivamente a primeira coisa na agenda.

Eu cheirei meus ombros enquanto tirava a roupa, mas eu não conseguí sentir o cheiro de

nada além da salmoura e das algas do oceano. Eu me perguntei o que Alice quis dizer quando

disse que eu estava cheirando mal.

Quando eu estava limpa, eu voltei para a cozinha.

Eu não via nenhum sinal de que Charlie havia comido recentemente, e ele provavelmente

estaria com fome quando voltasse. Eu sussurrava pra mim mesma enquanto me movia pela

cozinha.

Enquanto a caçarola de quinta girava no microondas, eu forrei o sofá com lençóis e coloquei

um travesseiro velho. Alice não precisaria dele, mas Charlie precisaria vê-lo. Eu fui cuidadosa pra

não olhar para o relógio. Não havia motivo pra começar a entrar em pânico; Alice havia prometido.

Eu me apressei pra terminar meu jantar, sem sentir o gosto dele - só sentindo a dor

enquanto ele escorregava pela minha garganta arranhada.

Eu estava com mais sede; eu devo ter bebido meio galão de água até a hora que eu

terminei. Todo o sal no meu sistema havia me deixado desidratada.

Eu fui tentar assistir TV enquanto esperava.

Alice já estava lá, sentada na cama improvisada. Os olhos dela eram líquidos como whisky.

Ela sorriu e deu um tapinha no travesseiro.

- Obrigada.

- Você chegou cedo - eu disse, estimulada.

Eu me sentei ao lado dela e inclinei minha cabeça no seu ombro. Ela colocou seus braços

frios ao meu redor e suspirou.

- Bella. O que nós vamos fazer com você?

- Eu não sei - eu admití. - Eu realmente estive tentando como pude.

- Eu acredito em você.

Eu fiquei em silêncio.

- Ele- ele... - eu respirei fundo. Era mais difícil dizer o nome dele em voz alto, mesmo sendo

capaz de pensar nele agora. - Edward sabe que você está aqui? - eu não conseguí deixar de

perguntar.

Era a minha dor, afinal de contas. Eu ia lidar com ela depois que Alice fosse embora, eu

prometí a mim mesma, e me sentí mal com o pensamento.

- Não.

Só havia uma forma disso ser verdade. - Ele não está com Carlisle e Esme?

- Ele entra em contato de mês em mês.

- Oh - ele ainda deve estar aproveitando as distrações dele. Eu foquei minha curiosidade

num tópico mais seguro. - Você disse que voou pra cá... De onde você veio?

- Eu estava em Denali. Visitando a família de Tânia.

- Jasper está aqui? Ele veio com você?

Ela balançou a cabeça.

- Ele não aprovou minha interrupção. Nós prometemos... - Ela parou, e então o tom dela

mudou. - E você acha que Charlie não vai se incomodar por eu estar aqui? - ela perguntou,

parecendo preocupada.

- Charlie acha você maravilhosa, Alice.

Certo o suficiente, alguns segundos depois eu ouví a viatura estacionando na garagem. Eu

me levantei num pulo e corrí para a porta.

Charlie se arrastava lentamente pela calçada, os olhos dele estavam no chão e os ombros

dele estavam caídos. Eu caminhei para a frente pra encontrá-lo; ele não havia me visto até que eu

o abracei pela cintura. Ele me abraçou de volta impetuosamente.

- Eu lamento por Harry, pai.

- Eu vou sentir muita falta dele - Charlie murmurou.

- Como está Sue?

- Ela parece confusa, como se ela ainda não tivesse se dado conta. Sam está ficando com

ela... - o volume da voz dele estava desaparecendo e reaparecendo. - Pobres daquelas crianças.

Leah só é um ano mais velha que você, e Seth só tem catorze... - Ele balançou a cabeça.

Ele continuou com o braço apertado ao meu redor enquanto voltamos a andar para a porta.

- Umm, pai? - eu achei que seria melhor avisá-lo. - Você nunca vai adivinhar quem está aqui.

Ele olhou pra mim com o rosto vazio. A cabeça dele virou, e ele espiou a Mercedes do outro

lado da rua, a luz da varanda refletida na brilhante pintura preta.

Antes que ele pudesse reagir, Alice estava na porta.

- Oi, Charlie - ela disse numa voz subjulgada. - Eu lamento por ter vindo numa hora tão

ruim.

- Alice Cullen? - ele olhou para a pequena figura na frente dele como se duvidasse do que os

seus olhos estavam dizendo. - Alice, é você?

- Sou eu - ela confirmou. - Eu estava na vizinhança.

- Carlisle está...?

- Não, eu estou sozinha.

Tanto eu quanto Alice sabíamos que ele não estava querendo saber de Carlisle. O braço dele

se apertou no meu ombro.

- Ela pode ficar aqui, não pode? - eu implorei. - Eu já pedi pra ela.

- Mas é claro - Charlie disse mecanicamente. - Nós adoraríamos recebê-la, Alice.

- Obrigada, Charlie. Eu sei que é uma hora horrível.

- Não, está tudo bem, mesmo. Eu vou estar muito ocupado fazendo o que puder pela família

de Harry; vai ser bom pra Bella ter um pouco de companhia.

- Tem jantar na mesa, pai - eu disse pra ele.

- Obrigado, Bells. - Ele me apertou mais uma vez antes de se arrastar para a cozinha.

Alice voltou para o sofá, e eu seguí ela. Dessa vez, foi ela que me colocou no seu ombro.

- Você parece cansada.

- É - eu concordei e levantei os ombros. - Experiências de quase morte fazem isso comigo...

Então, o que Carlisle acha de você ter vindo pra cá?

- Ele não sabe. Ele e Esme estavam numa viagem de caça. Eu terei notícia dele dentro de

alguns dias, quando ele voltar.

- Mas você não vai contar pra ele... quando ele aparecer de novo? - eu perguntei. Ela sabia

que eu não falava de Carlisle agora.

- Não. Ele ia arrancar minha cabeça fora - ela disse severamente.

Eu rí uma vez, e depois suspirei.

Eu não queria dormir. Eu queria ficar acordada a noite toda conversando com Alice. E pra

mim não fazia sentido estar cansada, tendo cochilado no sofá de Jacob o dia inteiro. Mas me

afogar realmente tinha exigido muito de mim, e meus olhos não conseguiam ficar abertos. Eu

descansei minha cabeça no seu ombro de pedra, e me deixei levar por um esquecimento que eu

nunca havia esperado.

Eu acordei cedo, de um sono profundo e sem sonhos, me sentindo bem descansada, mas

rígida.

Eu estava no sofá, enfiada embaixo dos lençóis que havia colocado pra Alice, e eu podia

ouvir ela e Charlie conversando na cozinha. Parecia que Charlie estava cozinhando o café da

manhã pra ela.

- Foi muito ruim, Charlie? - Alice perguntou suavemente, e no início eu pensei que eles

estivessem falando sobre os Clearwater.

Charlie suspirou. - Muito ruim.

- Me fale sobre isso. Eu quero saber exatamente o que aconteceu depois que nós fomos

embora.

Houve uma pausa enquanto uma porta do armário era aberta e fechada e enquanto um

botão do fogão era desligado. Eu esperei, temerosa.

- Eu nunca me sentí mais inútil - Charlie começou lentamente. - Eu não sabia o que fazer.

Naquela primeira semana, eu pensei que teria que hospitalizar ela. Ela não comia e não bebia

nada, ela não se movia. Dr. Gerandy estava soltando palavras como 'catatônico', mas eu não

deixei que ele visse ela. Eu estava com medo que isso assustasse ela.

- Mas ela superou isso?

- Eu pedí pra Renée vir pegá-la pra levá-la para a Flórida. Eu só não queria ter que... se ela

tivesse que ir para um hospital ou coisa assim. Eu esperava que estar com a mãe fosse ajudá-la.

Mas quando começamos a fazer as malas dela, ela se acordou com uma vingança. Eu nunca ví a

Bella pirar daquele jeito. Bella nunca teve acessos de raiva, mas, rapaz, ela estava furiosa. Ela

jogou as roupas dela pra todo lugar e gritava que nós não podíamos forçá-la a ir embora, e depois

ela finalmente começou a chorar. Eu pensei que esse fosse o fim de tudo. Eu não discutí quando

ela insistiu em ficar aqui... e no início ela não parecia estar melhorando...

Charlie parou. Era difícil estar escutando isso, sabendo quanta dor eu havia causado pra ele.

- Mas? - Alice incitou.

- Ela voltou pra escola e pro trabalho, ela comia e dormia e fazia o dever de casa. Ela

respondia quando alguém a fazia uma pergunta direta. Mas ela estava... vazia. Os olhos dela

estavam apagados. Havia um monte de coisas pequenas, ela não ouvia mais música. Ela não lia;

ela não estaria na sala se a TV estivesse ligada, não que ela já assistisse muito antes. Eu

finalmente entendí, ela estava evitando tudo que a fizesse se lembrar... dele. Nós mal podíamos

conversar; eu estava sempre tão preocupado em dizer alguma coisa que aborrecesse ela, as

menores coisas faziam ela vacilar, e ela nunca era voluntária pra nada. Ela só respondia uma coisa

se eu perguntasse. Ela estava sozinha o tempo inteiro. Ela não retornava as ligações dos amigos,

depois de um tempo, eles pararam de ligar. Era sempre a noite dos mortos vivos por aqui. Eu

ainda ouço ela gritando no sono...

Eu quase podia ver ele tremendo.

Eu estremecí, também, me lembrando. E então eu suspirei. Eu não havia conseguido

enganá-lo, nem por um segundo.

- Eu lamento, Charlie - Alice disse, a voz mal humorada.

- Não é sua culpa - o jeito que ele disse isso deixou bem claro que ele responsabilizava outra

pessoa. - Você sempre foi uma boa amiga pra ela.

- No entanto, ela parece melhor agora.

- É. Desde que ela começou a andar com Jacob Black, eu tenho reparado uma grande

melhora. Ela está com cor nas bochechas quando volta pra casa, um pouco de luz nos olhos. Ela

está mais feliz. - Ele parou e a voz dele estava diferente quando ele voltou a falar. - Ele é um ano

mais novo que ela mais ou menos, mais eu acho que tem mais alguma coisa acontecendo, ou pelo

menos está nesse caminho. - Charlie disse isso num tom que era quase agressivo. Era um aviso,

não pra Alice, mas pra que ela passasse. - Jake é velho para a idade dele - ele continuou, ainda

parecendo defensivo. - Ele tem tomado conta do pai fisicamente do mesmo jeito que Bella cuida

da mãe emocionalmente. Isso amadureceu ele. Ele é um garoto bonito também, puxou ao lado da

mãe. Ele é bom pra Bella, sabe. - Charlie insistiu.

- Então é bom que ela tenha ele - Alice concordou.

Charlie suspirou uma quantidade de ar, mudando rapido demais a sua opinião sobre o

assumto. - Ok, talvez eu esteja apressando as coisas. Eu não sei... mesmo com Jacob, de vez em

quando, eu vejo alguma coisa nos olhos dela, e eu me pergunto se por acaso eu tenho noção da

verdadeira dor pela ela está passando. Não é normal, Alice, e isso... isso me assusta. Não é nem

um pouco normal. Não é como se alguém tivesse... deixado ela, mas como se alguém tivesse

morrido. - A voz dele falhou.

Isso era como se alguém tivesse morrido, como se eu tivesse morrido. Porque isso foi mais

do que apenas perder o mais verdadeiro dos amores, como se isso não fosse suficiente pra matar

alguém. Mas também isso era perder um futuro inteiro, uma família inteira, toda a vida que eu

havia escolhido.

Charlie continuou no seu tom desesperançado. - Eu não sei se ela um dia vai superar isso,

eu não sei se faz parte da natureza dela se curar de uma coisa assim. Ela sempre foi uma coisinha

tão constante. Ela não esquece as coisas, muda de idéia.

- Ela é uma em um milhão - Alice concordou com a voz seca.

- E Alice... - Charlie hesitou. - Agora, você sabe a afeição que eu sinto por você, e eu posso

dizer que ela está feliz em te ver, mas... eu estou um pouco preocupado com o que a sua visita vai

fazer com ela.

- Eu também, Charlie, eu também. Eu não teria vindo se eu tivesse idéia. Me desculpe.

- Não se desculpe, querida. Quem sabe? Talvez seja bom pra ela.

- Eu espero que você esteja certo.

Houve uma longa pausa enquanto garfos arranhavam os pratos e Charlie mastigava. Eu me

perguntei onde Alice estava escondendo a comida.

- Alice, eu preciso te perguntar uma coisa - Charlie disse estranhamente.

Alice estava calma. - Vá em frente.

- Ele não vai voltar pra visitar também, vai? - eu podia ouvir a raiva suprimida na voz de

Charlie.

Alice falou num tom macio, tranquilizador. - Ele nem sabe que eu estou aqui. Da última vez

que eu falei com ele, ele estava na América do Sul.

Eu enrigecí quando ouví essa nova informação, e escutei com mais vontade.

- Pelo menos, isso é alguma coisa - Charlie bufou. - Bem, eu espero que ele esteja se

divertindo.

Pela primeira vez, a voz de Alice parecia estar um pouco dura. - Eu não tiraria conclusões

precipitadas, Charlie. - Eu sabia como os olhos dela brilhavam quando ela usava esse tom.

Uma cadeira se afastou da mesa, se arrastando com muito barulho no chão da cozinha. Eu

imaginei Charlie se levantando; não havia a menor possibilidade de Alice fazer esse barulho todo.

A torneira correu, fazendo um splash no prato.

Não parecia que eles iam dizer mais alguma coisa sobre Edward, então eu decidí que era

hora de levantar.

Eu me virei, saltando sobre a mola pra fazê-la ranger. Depois eu bocejei alto.

Estava tudo quieto na cozinha.

Eu me estiquei e gemí.

- Alice? - eu perguntei inocentemente; a inflamação na minha garganta ajudou muito na

brincadeira.

- Eu estou na cozinha, Bella - Alice chamou, não havia nenhuma pontada da voz dela que

suspeitasse que eu estive escutando escondida. Mas ela era boa em esconder coisas como essa.

Charlie teve que sair nessa hora - ele estava ajudando Sue Clearwater com os arranjos para

o funeral. Teria sido um longo dia sem Alice. Ela nunca falou sobre ir embora, e eu não perguntei.

Eu sabia que isso era inevitável, mas eu tirei isso da cabeça.

Ao invés disso, nós falamos sobre a sua família - todos menos um.

Carlisle estava trabalhando ás noites em Ithaca e ensinando parte do tempo em Cornell.

Esme estava restaurando uma casa do século dezessete, um monumento histórico, na floresta á

norte da cidade.

Emmett e Rosalie foram para a Europa por alguns meses para mais uma lua de mel, mas

agora eles já estavam de volta. Jasper estava em Cornell também, estudando filosofia dessa vez. E

Alice esteve fazendo algumas pesquisas pessoais, envolvendo informações que eu acidentalmente

havia revelado pra ela na primavera passada. Ela teve sucesso em encontrar o asilo onde ela

passou os últimos anos da sua vida humana. A vida da qual ela não tinha nenhuma memória.

- Meu nome era Mary Alice Brandon - ela me disse baixinho. - Eu tinha uma irmã mais nova

chamada Cynthia. A filha dela, minha sobrinha, ainda vive em Biloxi.

- Você descobriu porque te colocaram... naquele lugar? O que havia levado seus pais a esse

extremo? Mesmo se a filha deles tinha visões do futuro...

Ela só balançou a cabeça, seus olhos cor de topázio pensativos. - Eu não conbsegui

descobrir muito sobre eles. Eu lí todos os jornais antigos no estoque. Minha família não era

mencionada com muita frequência; eles não faziam parte do círculo de notícias que faziam os

jornais. O noivado dos meus pais estava lá, e o de Cynthia. - O nome saiu da boca dela sem muita

certeza. Meu nascimento foi anunciado... e a minha morte. Eu encontrei meu túmulo. Eu também

vasculhei as fichas de admissão dos velhos arquivos do asilo. A data de admissão e a data na

minha lápide são a mesma.

E não sabia o que dizer, e, depois de uma pequena pausa, Alice mudou para tópicos mais

leves.

Os Cullen estavam reagrupados agora, com apenas uma excessão, e eles estão aproveitando

as férias de Cornell em Denali com Tânia e a família dela. Eu escutei muito ansiosamente até as

notícias mais triviais. Ela nunca mencionou o único no qual eu estava mais interessada, e eu fiquei

agradecida por isso. Já era suficiente ouvir as histórias da família da qual um dia eu havia sonhado

em fazer parte.

Charlie não voltou até depois que já estava escuro, e ele parecia estar mais cansado do que

estava na noite passada. Ele ia para a reserva na primeira hora da manhã para o funeral de Harry,

então ele havia voltado mais cedo. Eu fiquei no sofá com Alice de novo.

Charlie era quase um estranho quando desceu as escadas quando o sol apareceu, vestindo

um terno velho que eu nunca havia visto ele usando antes. O terno estava aberto; eu acho que

estava apertado demais pra fechar os botões. A gravata dele era um pouco larga demais para o

estilo atual. Ele foi na ponta dos pés até a porta, tentando não acordar a gente. Eu deixei ele ir,

fingindo que estava dormindo, assim como Alice fazia na cadeira reclinável.

Assim que ele havia saído pela porta, Alice se sentou. Por baixo da colcha, ela estava

completamente vestida.

- Então, o que vamos fazer hoje? - ela perguntou.

- Eu não sei, você vê alguma coisa interessante acontecendo?

Ela sorriu e balançou a cabeça. - Mas ainda é cedo.

Todo o tempo que eu estive passando em La Push signigficou que eu estava negligênciando

algumas coisas dentro de casa, e eu decidí recuperar o tempo perdido.

Eu queria fazer alguma coisa, qualquer coisa que tornasse a vida mais fácil pra Charlie,

talvez ele se sentisse melhor voltando para uma casa limpa, organizada. Eu comecei pelo banheiro

- ele era o que mostrava mais sinais de abandono.

Enquanto eu trabalhava, Alice se encostou no batente da porta e fez perguntas de cortesia

sobre os meus, bem, nossos amigos da escola e o que eles andavam fazendo desde que ela foi

embora. O rosto dela continuou casual e sem emoção, mas eu sentia a desaprovação dela quando

ela viu o quanto eu tinha pouco a dizer. Ou talvez eu só estivesse com a consciencia pesada

depois de ter bisbilhotado a conversa dela com Charlie ontem de manhã.

Eu literalmente estava de cotovelos no chão, esfregando o chão da banheira, quando a

campainha da porta tocou.

Eu olhei pra Alice imediatamente, e a expressão dela estava perplexa, quase preocupada, o

que era estranho; Alice nunca era pega de surpresa.

- Espere! - eu gritei na direção geral da porta da frente, me lavantando e me apressando

para a pia pra limpar meus braços.

- Bella - Alice disse com um traço de frustração na voz. - Eu tenho uma boa ideia de quem

pode ser, e eu acho que é melhor eu dar uma saidinha.

- Idéia? - eu ecoei. Desde quando Alice precisava ter uma idéia sobre alguma coisa?

- Se isso for um replay do meu notório lapso de visão de ontem, então é bem possível que

seja Jacob Black ou um dos seus... amigos.

Eu encarei ela, juntando as peças. - Você não consegue ver lobisomens?

Ela fez uma careta. - Assim parece. - Ela estava obviamente aborrecida por esse fato, muito

aborrecida.

A campainha tocou de novo - soando duas vezes rapidamente e impacientemente.

- Você não tem que ir a lugar nenhum, Alice. Você estava aqui primeiro.

Ela sorriu o seu pequeno sorriso prateado, ele possuia uma pontada obscura. - Confie em

mim, não seria uma boa idéia ter a mim e Jacob Black juntos na mesma sala.

Ela beijou rapidamente a minha bochecha antes de desaparecer pela porta de Charlie - e

pela sua janela sem dúvida.

A campainha tocou de novo.

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